Roteirizada e dirigida por Matthieu Delaporte e Alexandre De La Patellière, a adaptação cinematográfica do livro ‘O Conde de Monte Cristo’ possui charme, é envolvente e ainda conta com o empenho de Pierre Niney no papel principal. O longa-metragem foca nos relacionamentos e redes de intrigas movimentadas pelo protagonista em busca de justiça, ou seria vingança?
Contudo, talvez, a temporalidade seja um ponto delicado, haja vista o fato de ser narrado um percurso de 21 anos. Além disso, adaptar uma obra literária densa é sempre um desafio, ainda mais um clássico, esse escrito pelo francês Alexandre Dumas.
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Na trama, Edmond Dantès é um marinheiro de origem simples, porém, com um futuro promissor ao lado da amada Mercédès, interpretada por Anaïs Demoustier. O jovem é cercado por figuras abastadas como Fernand de Morcef, vivido por Bastien Bouillon.
Após uma acusação injusta de associação a Napoleão Bonaparte, ele é enviado à prisão. Após anos de encarceramento e experiências vividas, ocorre uma guinada. A partir disso, Dantès assume a identidade de um enigmático conde. Disposto a descobrir o nome daqueles que o prejudicaram e, consequentemente, puni-los por isso.
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>> Pierre Niney é Frantz em produção dirigida por François Ozon
Edmond e o conde: elipses em foco
Logo de início, uma cena de maior ação física revela o caráter heroico do protagonista e, pela atitude, ele é recompensado, mas também é prejudicado por outro lado. Tal dualidade é algo marcante e se apresenta de modo convincente ao longo de toda a trajetória. Neste interim, os enfrentamentos com a temporalidade já se fazem presentes.
Com o elenco principal composto, majoritariamente, por artistas acima dos 30 anos , houve uma necessidade de deixá-los com a aparência mais jovial e depois torná-los mais maduros de acordo com a passagem de tempo pedida pela história, aproximadamente, duas décadas.
Isso posto, a equipe de caracterização é assertiva ao enfrentar esse trabalho árduo. Contudo, em momentos pontuais, algumas fragilidades podem ser percebidas por olhares mais exigentes. Ainda assim, nota-se o empenho da direção de arte, há um zelo presente nos figurinos, maquiagem e cenários.
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Adapatar, eis a questão
Com relação à edição, são incluídas legendas com a indicação da passagem do tempo. Talvez, tais anotações pudessem ter sido subtraídas.
Nesse sentido, seria interessante inserir cenas que pontuassem esses avanços temporais, sem a necessidade dessa demarcação por escrito. Enfim, são escolhas. Aliás, trata-se de um filme baseado em um romance conhecido, todavia, há liberdade para mudanças quanto aos personagens e rotas a serem seguidas.
Aliás, são 176 minutos de exibição, um período maior que o habitual. No entanto, é preciso levar em conta a dificuldade na adaptação de um livro denso para o audiovisual. Portanto, como articular tanta informação? No caso, houve uma predileção pelo uso de elipses, ou seja, a pressuposição ou omissão de certas informações com o corte para uma cena seguinte.
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Outra característica peculiar é o investimento em imagens capazes de proporcionar uma sensação de maior amplitude visual, tais como: o plano geral em plongée (de cima para baixo) do mar ou mesmo a perspectiva que adentra a luxuosa morada do conde. Tal escolha estética proporciona uma experiência mais rica quando visualizada nas telas grandiosas das salas de cinema.
Mesmo com a verossimilhança discutível em determinadas sequências, a obra consegue se manter cativante. Ao investir nos variados disfarces do personagem central, instiga-se a curiosidade e gera-se o entretenimento. Além disso, vale ressaltar a presença das reviravoltas no roteiro, especialmente, no terceiro ato. Dessa maneira, a narrativa captura a atenção do expectador.
Em suma, ‘O Conde de Monte Cristo’ exibe o charme esperado de um clássico. Mas é preciso estar disposto a embarcar na proposta do filme, ciente das 2 horas e 58 minutos de projeção e desconectado do celular.